Dois artigos interessantes

Dois artigos interessantes do “Aparelho de Estado”,

publicado no sítio do jornal “Expresso”

O facilitismo do Ministério da Educação

Entre duas estratégias conhecidamente ineficazes, o Ministério da Educação escolheu a mais barata e aquela que, convenientemente, melhor resultava nas estatísticas europeias.

Alexandre Homem Cristo
9:21 Quinta-feira, 29 de Abril de 2010

Importam-se de avisar a ministra da Educação, sff

Inês Teotónio Pereira (www.expresso.pt)
13:31 Quarta-feira, 28 de Abril de 2010
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Da conversão do material vídeo

A nossa biblioteca recebeu uma colecção interessante de filmes gravados em VHS, cujos aparelhos de leitura já rareiam, tornando cada vez mais difícil o acesso ao seu conteúdo. Daí que haja necessidade de fazer uma conversão desse material para suporte digital para muito dos documentos que possuímos. 

Porém, tal decisão carece de alguma reflexão tendo em conta algumas questões que necessitam de ser analisadas.

Passar de um suporte analógico para um digital melhorará necessariamente a imagem transcrita?

Convém começar por esclarecer os conceitos e  a natureza das tecnologias que estão por detrás de cada uma delas. O Video Home System (VHS) é um formato de gravação vídeo e audio dito analógico, tal como é o Betamax e muitos outros que entretanto foram esquecidos pela evolução tecnológica e pela guerra de mercados. A tecnologia do DVD, Blue Ray e outros muito menos famosos é digital.

 Esta diferença tecnológica não resulta num pequeno pormenor, uma vez que a conversão do conteúdo de um para outro sistema encerra alguns problemas e mal-entendidos.

Pretender que a imagem melhore só porque se passa de VHS para DVD ou Blue-Ray (B-R) parece-nos um disparate, uma vez que o ganho é muito pouco, se houver.  A informação passa de um suporte para o outro, mas a qualidade que prevalece é o da tecnologia de origem. Se a qualidade da gravação de origem for fraca ou se os aparelhos em que o fizermos já não estiverem em condições até piora.

A grande vantagem na conversão neste aspecto talvez resida na possibilidade de dar estabilidade à qualidade da imagem, uma vez que a informação da imagem digital se resume a um código de números e, desde que essa informação não se altere, a imagem não se degrada com o tempo. O que se pode degradar é o suporte em que essa informação está contida e, deste modo, podemos perder a imagem porque perdemos a informação dessa imagem. Num sistema analógico, a imagem vai-se sempre degradando com o suporte, embora a velocidade de deterioração dependa bastante das condições de armazenamento e das caratcrísticas do material.

O VHS tem uma imagem com uma resolução de imagem relativamente baixa. Portanto, passa também os defeitos quando convertemos.

Há possibilidades de melhorar a imagem, mas só com tecnologia e profissionais que se dedicam a restaurar masters de filmes, mas isso é outro patamar de desempenho. A não ser que se acredite nas séries do tipo CSI em que vemos os personagens a melhorar por “artes mágicas” imagens praticamente ininteligíveis e em muito pouco tempo. Mas isso é “filme”.

 

O suporte digital apresenta maior longevidade do que o analógico?

Também a questão da maior longevidade do DVD relativamente ao VHS no que respeita à conservação do material gravado em ambiente doméstico é questionável. Dos contactos que temos mantido com especialistas na matéria, retivemos a ideia de que é falsa a sensação de segurança que existe entre muita gente quanto à segurança do armazenamento dos dados quer CD-R (ou +R, ou –RW), quer em DVD-R. Resumidamente, disseram-nos que a longevidade de um CD ou de um DVD gravado em casa ou na biblioteca (a tecnologia é exactamente igual) não é assim tão grande e, em certos casos, perde-se até muito rapidamente a informação. Depende de certos factores que não controlamos.

Aconselharam a guardar a informação em disco duro externo, cujo custo se tornou muito baixo, tendo em conta a memória que oferece. Além disso, deve-se proteger bem o disco, longe de más vizinhanças electrostáticas e ao abrigo de outras más influências. Dizem-nos que a probabilidade de se perder informação digital é muito elevada, mesmo em sistemas protegidos.

Já nos aconteceu perdermos informação em CD e DVD que gravámos e testámos devidamente. Aparentemente estava tudo bem, foram guardados juntamente com outros e passados poucos meses estavam sem vestígios do material. Alguns desses especialistas até me dizem que muitas cassetes VHS irão sobreviver à maioria dos CD e DVD. Talvez aconteça, mas as imagens das cassetes em VHS tendem a “acastanhar” e na tecnologia digital a cor não se altera porque tudo se resume a informação transcrita em código binário e essa perdendo-se, não fica nem castanho, nem azul nem coisa alguma, simplesmente não fica.

 Já os DVD gravados pelas editoras e comprados nas lojas, responderam-nos, levam um “banho” de um produto químico posteriormente à gravação e ficam mais protegidos (por uns 30 anos… acrescentaram… com sorte).

 Portanto, o melhor será comprar um disco duro externo, converter para lá os filmes VHS e depois, à medida que os “clientes” pedissem, gravávamos em DVD uma cópia. Ficávamos com três cópias: o VHS, o do disco duro e o do DVD.

Em termos de Direitos de Autor não se levantam problemas porque a Lei prevê esta possibilidade. (art.º 75º, na alínea e) do seu n.º 2).

 

O formato do ecrã.

Tanto o formato VHS como o Betamax foram suportes concebidos para material de Televisão (documentários, séries, etc.). Estes filmes para TV são concebidos para “caberem” num ecrã com uma relação largura x altura 4:3. Todo o material que foi produzido desde o início para TV não apresenta, portanto, problema nenhum.

 Já no que respeita ao cinema a questão coloca-se, às vezes dramaticamente, uma vez que a maior parte dos filmes não foi feita para ecrãs dessa proporção do ecrã. Como muitos saberão mas outros não, essa relação é diferente. No mínimo será de 16:9 (Widescreen). Outros formatos são ainda mais complicados de enfiar nesse electrodoméstico chamado TV, como por exemplo os que foram concebidos em CinemaScope.

Por essa razão é que os televisores modernos passaram a adoptar o por cá denominado Ecrã Panorâmico. Mas, mesmo assim, em alguns filmes surgem duas grossas barras pretas por cima e por baixo naqueles que exploram uma imagem larga, como é o caso dos “western” e de um certo cinema dos finais do anos 50 e nos anos 60 do século XX e alguns filmes mais recentes, uma vez que esses écrãs não são ainda tão panorâmicos assim. É que este termo aplica-se com maior propriedade aos écrãs cuja largura é muito maior do que a altura. 

Parte do interesse das obras realizadas para écrãs panorâmicos reside na imagem larga com que captam os elementos cénicos. Podem ser as paisagens dos westerns, cenas de multidão ou de grupo, diálogos entre personagens. Seja o que for, as imagens assim compostas têm uma riqueza muito superior ao das pobres janelinhas que os clássicos televisores  TV nos ofereciam. Na verdade, muitos destes filmes são para se ver em cinema ou não se ver de todo.

 

Cinema é imagem animada. Se tem ou não narrativa é outra questão. Antes de mais nada há o respeito pela imagem e, tal como não lemos livros a cortar palavras, também não devemos ver cinema a sério com imagens cortadas. Ver cinema com imagens amputadas é não ver cinema. É outra coisa, na nossa opinião.

 Ora, o VHS apresenta esse problema: como colocar num ecrã 4:3 imagens pensadas para proporções diferentes? Amputando as imagens! Uma das soluções foi a de se fazer “pan and scan”. Este processo altera terrivelmente as imagens de um filme pensado para outras dimensões, não se limitando a cortar as imagens, mas também a criar movimentos que não existiam originalmente.

Veja-se o nosso post dedicado ao assunto.

 

Há muitos anos, ao vermos o filme “Barry Lyndon” do Stanley Kubrick em VHS, ao fim de alguns minutos tivemos de desligar porque o melhor do filme não se estava a ver e que era a composição da imagem. O filme tem uma história muito interessante (um arrivista, oportunista e cobarde que pretende fazer a sua ascensão social na Inglaterra dos finais do século XVIII) mas o mais importante era a forma como o realizador reproduzia as paisagens que os pintores ingleses da época tinham elaborado e que se tornou num género muito apreciado até hoje. Portanto, a composição das imagens, muito rigorosa como Kubrick sempre fez,  era tanto ou mais importante do que o resto. Passados quase 20 anos, vimos o filme em 16:9 e confirmámos a impressão que tivemos: a imagem era tudo e a história um pretexto. No verdadeiro cinema, com os melhores, a imagem vem sempre antes ou com a narrativa, nunca como acessório. Amputar a imagem é amesquinhar a obra.

O melhor mesmo era tê-lo visto numa sala de cinema a sério, mas isso será difícil de nos acontecer.

 

O mesmo se passa com a música: quantas vezes não dissemos que não gostavamos de determinado tipo de música mais complicado ou mais exigente? Mas basta mudar a audição para uma aparelhagem decente e não para aquelas coisas roufenhas que se vendem por aí por meia dúzia de tostões, para que as opiniões também mudem porque se passa a ouvir bem. As aparelhagens que utilizamos não devem empastelar o som porque deturpa a obra ouvida.

O mesmo se passa com o hábito de se ouvir música com auriculares. Para além dos problemas na audição que poderão vir a causar, também a qualidade não é famosa e o som vem muitas vezes “simplificado” e com pouca profundidade. Por isso, preferimos, na falta de umas boas colunas, um bom par de auscultadores (de qualidade).

 

Se arrancássemos capítulos a um livro de um autor importante, ou se fizéssemos versões simplificadas das obras, ou se mudásssemos as palavras nas frases, como seriam as reacções dos leitores? Porque é que o fazemos no som ou na imagem sem que isso nos cause tantos problemas? Será falta de exigência?

 

Por isso, o VHS, em vez de constituir um meio usado para educar, pode constituir, antes, uma forma de deseducar, porque vicia os espectadores a resignarem-se a ver cinema amputado (e pobre, em termos de leitura).

Ter esta noção também é literacia da informação: imagem é informação. Também se aprende a ver imagem e a ver imagem em movimento.

 Os que foram feitos para TV não constituem problema: foram pensados para aquele formato.

 Pergunta final: que fazer das colecções de VHS com filmes feitos para cinema? Deitar tudo fora e investir em formatos digitais que respeitem os formatos?

Seria uma ideia excelente não fora o facto de não termos dinheiro sequer para o básico quanto mais para luxos.

O ideal seria uma salinha com cadeiras confortáveis, um projector e um ecrã à antiga. Sabiam que a Mealhada, no Cine-Teatro Messias, teve, nos anos 50 ou 60, um dos primeiros ecrãs de 70 mm, muito antes do que Coimbra ou outras cidades em Portugal?

Com a instalação de projectores e ecrãs em todas as salas já é uma aproximação ao ideal, embora a falta de écrãs em algumas salas faça com que os ganhos se percam. Instalar um bom projector e poupar no écrã é como comprar um bom carro e não lhe aplicar pneus: o carro é bom mas não anda e é inútil. 

Mas, apesar de tudo é muito melhor do que colocar uns televisores miseráveis na sala da biblioteca: aí não estamos a ver cinema mas umas obras amesquinhadas. Por isso é que não motivamos os alunos para a visualização de filmes na sala de leitura por ser impossível asegurar um mínimo de qualidade. Preferimos que os levem para casa onde, em geral, os leitores têm já melhores condições do que aquela que podemos oferecer. 

 

Temos, por isso, de ter consciência de que ao converter filmes de VHS para DVD também passamos todos os defeitos e a consequente deseducação, sem melhorar nada.

 

Contudo, apesar de ternos essa consciência, não vamos deitar fora os quase 800 filmes que temos em VHS e iremos fazer a conversão para um sistema qualquer, ainda a pensar e a decidir.

Mas só o fazemos por não haver recursos (=dinheiro) para fazer de outra maneira, porque para os VHS que temos com cinema o que se deveria fazer era deitá-los ao lixo como se faz aos livros que vêm defeituosos.

Se vivêssemos num sistema perfeito, tudo seria substituído imediatamente por versões em formatos “amigos do cinema”. A realidade não é essa e não temos outro remédio que não seja aguentar. 

 

Mas, é nosso dever chamar atenção dos “leitores” (de imagens animadas) de que o produto que vendemos não é muito “fresco” e, às vezes, até cheira mal! 

 

Pedro Miguel Semedo

Professor Bibliotecário

Pan and scan

De vez em quando vem à baila a questão dos formatos dos ecrans de cinema e telecvisão e a mutilação que certas obras sofreram na sua adaptação ao vídeo em formatos analógicos (VHS ou Betamax).

Sobre estes assuntos recomendamos a visita:

Pan and scan 

Já conhecemos este artigo com maior extensão e com elementos visuais mais explícitos. Para completar, convém aproveitar todos as hiperligações que o artigo fornece.

Ver também:

vídeo 1

vídeo 2

vídeo 3 (o mais interessante, com Scorcese e outros)

vídeo 4 (com Sydney Pollack)